Bem, não só prometo como agarantio que as séries recordar é viver vão abrandar. Em breve, teremos mais amostras da rara (no mercado) e ótima produção musical que se faz na atualidade. Ela existe. Jorra aos borbotões na minha (com o alto-falante na tampa de plástico) eletrolinha Phillips Nana Nenem portátil. Mas há recuerdos que são mais fortes que o Eu primordial. Sendo assim, se assenta que lá vem história!
Era uma madrugada morna de um ano longínquo lá nos finalmente dos 1970 - só para localizar o leitor um cadin no tempo que isso faz. Estava eu deitado no sofá da sala, na casa de uma das saudosas ex, quando a tevê anunciou mais um campeão de audiência na Seção Coruja. Fez-se fade na tela e surgiram os créditos: “OS LADRÕES” (LE CASSE, no original)... Estrelando (lembra da voz do locutor? "Versão brasileira A&C, São Paulo"... Poizé): Jean-Paul Belmondo... Omar Shariff... “Opa! Acorda que é filme bom, tchutchuca...” – alertei a gata. É claro que tchutchuca é figuraça de linguagem. Em nome do Pai, eu juro que nunca me referi à companheira, nesses termos. Anfã. A música tema do filme era convidativa. Um legítimo Morricone avintajado sessentista amaciava nossos ouvidos... Nossos? "Acorda, amô!" Ela não acordou mas deveria. O tema era de excelência... Daquelas músicas perfeitas que pegam a gente de jeito, daquelas que nem o fim de um enlace amoroso ou os desenlaces de futuros outros, consegue apagar. Ah, o filme! Um noir passado em Ancara, Turquia. Shariff era o charmoso-esperto-chefe-de-polícia-corrupto – disponibilizando em causa própria, todo efetivo da tropa de elite da cidade -, a fim de tomar para si só o produto do roubo dos ladrões (do título) da quadrilha liderada por J-P Belmondo, o ladrão-antigalã-boa-praça (com mania de acender cigarros pelo filtro, cuja namorada sempre os virava para o lado certo na hora H)... Há, no filme uma perseguição (pega, em São Paulo "racha"), nas estreitas ruas de Ancara - citação ao Bullitt, anterior, de Steve McQueen. Só que ao invés de bólidos americanos avantajados (não tão avintajados), duas bagaças automotivas cujo o maior mistério é entender como correm tanto! E eles, numa seqüência brilhante de uns 10/15 minutos, sobem e descem escadas, serpenteiam por calçadas abarrotadas de pedestres se esquivando em pleno rush, atropelam feiras livres... É de tirar o fôlego e secar as papilas gustativas.
Ih, agora esqueci da trilha do Ennio, ó! que filmaço!... E ó, que música: sobe o som. A canção tema é a tal da melodia perfeita, no sentido mais que perfeito que o termo encerra. Que me seguiu, há até pouco tempo, pela vida inteira. Tema que me vinha e voltava ao sabor dos bons ventos e momentos. E me fez não descansar enquanto não encontrasse o álbum original. Um LP, para variar, raríssimo que achei num sebo imundo, a preço de um copo de Mate Leão sem limão (tô dramatizando, claro). Agora, nos 2000, devidamente formatado MP3 (o LP) e prontinho para contaminar-lhes ouvidos e mentes... Não quero carregar este karma sozinho, dá licença? A capa? Disponibilizei o que encontrei na Rede. Foi o que deu pra arrumar. Resolvi, há alguns anos que a profissão de colecionador me levaria a falência, até porque não me sobrara mais muito espaço para tal. O álbum raro ficou em alguma mudança. Quem sabe entre um enlace e outro (desenlace).
Ennio Morricone - Le Casse
